Do Supermercado de Kruschev à Copa do Mundo de 2026: quando a realidade derrota a propaganda
- Luiz Henrique Alochio
- há 4 horas
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Em setembro de 1959, o líder soviético Nikita Khrushchev desembarcou nos Estados Unidos convencido de que o sistema comunista representava o futuro da humanidade. A União Soviética se apresentava como a sociedade da igualdade, do pleno emprego e da prosperidade coletiva. O capitalismo americano, segundo a narrativa oficial, seria um sistema marcado pela exploração e pelas desigualdades.

Durante sua visita, porém, Kruschev foi levado a conhecer um supermercado da rede Safeway na Califórnia. O que viu causou profundo impacto. Corredores repletos de alimentos, carnes, frutas, produtos industrializados e uma variedade de bens de consumo acessíveis ao cidadão comum. O episódio tornou-se um dos símbolos da Guerra Fria porque revelava algo que a propaganda soviética não conseguia explicar: a abundância americana não era reservada às elites, mas fazia parte da vida cotidiana.
Trinta anos depois, outro líder soviético viveria experiência semelhante, mas com consequências ainda mais profundas.
Em setembro de 1989, Boris Yeltsin visitava os Estados Unidos quando decidiu fazer uma parada não programada em um supermercado Randall’s, em Webster, Texas. Após percorrer os corredores e observar mais de 30 mil produtos disponíveis ao consumidor comum, Yeltsin ficou atônito. Experimentou queijos, observou a seção de congelados, conversou com clientes e perguntou aos funcionários sobre salários e preços. Ao retornar ao avião, permaneceu em silêncio por longo período. Um de seus assessores relataria mais tarde que “o último vestígio de bolchevismo desmoronou dentro dele”.

O próprio Yeltsin escreveu posteriormente que, ao ver aquelas prateleiras repletas de mercadorias, sentiu “desespero pelo povo soviético”. Em outro momento afirmou que, se os cidadãos soviéticos vissem um supermercado americano comum, “haveria uma revolução”.
O contraste era brutal. Enquanto o “sonho soviético” prometia prosperidade futura, os americanos já desfrutavam dela no presente. Enquanto cidadãos soviéticos enfrentavam filas para adquirir bens básicos, famílias americanas escolhiam entre dezenas de marcas de um mesmo produto. A disputa ideológica da Guerra Fria encontrava, nos corredores de um supermercado, sua demonstração mais contundente.
Sessenta e sete anos após a visita de Kruschev e trinta e sete após a de Yeltsin, os Estados Unidos continuam produzindo impacto semelhante sobre visitantes estrangeiros.
Durante a Copa do Mundo de 2026, milhares de europeus e asiáticos têm utilizado TikTok, Instagram, YouTube e X para relatar surpresa com aspectos do cotidiano americano. Muitos chegaram esperando encontrar um país decadente, violento e desorganizado. Encontraram algo bastante diferente.
Vídeos viralizados mostram turistas impressionados com o tamanho dos supermercados, a variedade de alimentos, o churrasco texano, os restaurantes abertos vinte e quatro horas, a abundância de produtos e os famosos “refis ilimitados” de bebidas. Outros destacam a cordialidade dos americanos, a disposição dos moradores locais em ajudar visitantes estrangeiros e a atmosfera festiva criada nas cidades-sede.

Também chamam atenção os elogios à infraestrutura. Estádios modernos, aeroportos gigantescos, rodovias, centros de entretenimento e a capacidade logística americana surpreenderam muitos visitantes. A Copa registrou estádios lotados e índices de ocupação próximos da capacidade máxima, demonstrando uma organização que superou previsões pessimistas feitas antes do torneio.

Naturalmente, os Estados Unidos possuem problemas reais e desafios significativos. Mas o ponto central é outro. Tanto Kruschev em 1959 quanto Yeltsin em 1989 e inúmeros turistas em 2026 descobriram a mesma verdade: existe uma diferença entre conhecer um país por meio da propaganda e conhecê-lo pela experiência direta.
O supermercado visitado por Kruschev abalou certezas. O supermercado visitado por Yeltsin ajudou a destruir as últimas ilusões sobre a viabilidade econômica soviética. E a Copa do Mundo de 2026 está permitindo que milhões de estrangeiros observem por si mesmos uma realidade frequentemente muito diferente daquela descrita por narrativas ideológicas ou midiáticas.
A lição permanece atual. Discursos podem convencer. Estatísticas podem impressionar. Mas poucas coisas são tão poderosas quanto ver a realidade com os próprios olhos. Foi assim com Kruschev. Foi assim com Yeltsin. E continua sendo assim com os visitantes que hoje percorrem os Estados Unidos durante a Copa do Mundo.




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