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Mais Diógenes: o cinismo contra o autoritarismo

  • Foto do escritor: Luiz Henrique Alochio
    Luiz Henrique Alochio
  • 6 de mar.
  • 2 min de leitura

Mais Diógenes: o cinismo contra o autoritarismo


No século IV a.C., Diógenes de Sinope tornou-se um símbolo de independência intelectual, ou de loucura, se preferirem. Filósofo da escola do Cinismo [kynikos, igual a um cão] viveu de modo deliberadamente provocador. Os cínicos, como os cães, pretendiam uma falta de pudor, não como perda da modéstia, mas para resguardar, como os cães guardam os seus, a verdade contra a falsidade, o bem do mal, como forma de expor a hipocrisia social.

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Conta-se que Diógenes caminhou pelas ruas de Atenas com uma lanterna acesa em pleno dia, dizendo que procurava ā€œum homem honestoā€. Em outro episódio, estava Diógenes tomando sol, quando o encontrou Alexandre, o Grande. O poderoso conquistador pergunta: ā€œo que posso te dar?ā€, tendo recebido como resposta: ā€œSaia da frente do meu solā€.

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Essas histórias não são meras anedotas filosóficas. Elas expressam uma atitude fundamental: a recusa em se curvar ao poder, ao prestígio ou às convenções sociais quando estas se tornam instrumentos de dominação moral. A abominação à bajulação e ao servilismo.

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O Brasil contemporĆ¢neo talvez precisasse de um pouco desse espĆ­rito cĆ­nico — no sentido clĆ”ssico da palavra. Diógenes desprezava as aparĆŖncias sociais que mascaravam pretensƵes de virtude. A liberdade intelectual deveria depender de uma postura desarmada diante das pressƵes coletivas. Quem precisa de pouco e teme pouco tambĆ©m fala com mais liberdade.

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Boa parte das censuras modernas nasce exatamente do oposto: do desejo de impor conformidade moral. Muitas vezes isso aparece sob a forma de um moralismo seletivo, no qual determinados grupos reivindicam autoridade para definir quais opiniƵes sĆ£o aceitĆ”veis. O fenĆ“meno do ā€œcancelamentoā€, por exemplo, funciona frequentemente como uma espĆ©cie de tribunal informal de reputação. Os progressistas, sinalizadores de virtudes, e os poderores que nĆ£o desejam crĆ­ticas, nĆ£o Ć  toa se irmanam no ódio o humor, onde ainda residem o sarcasmo e o cinismo.

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A postura cĆ­nica de Diógenes oferece um antĆ­doto cultural contra esse tipo de arbĆ­trio. Ao expor a fragilidade das convenƧƵes e a artificialidade de certos discursos de virtude, o filósofo lembrava que nenhuma autoridade moral Ć© incontestĆ”vel. Sua ironia desmontava pretensƵes de pureza moral — inclusive as de quem se apresentava como guardiĆ£o do bem pĆŗblico.

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Se mais cidadãos adotassem esse espírito de independência crítica, a pressão por uniformidade perderia força. A sociedade ficaria menos suscetível a censuras simbólicas e a patrulhas ideológicas travestidas de moralidade.

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O legado de Diógenes, afinal, nĆ£o Ć© a provocação gratuita. Ɖ a defesa radical da liberdade intelectual — aquela que comeƧa quando alguĆ©m tem coragem de dizer ao poder, seja polĆ­tico ou social: ā€œapenas nĆ£o me tire o solā€.

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Luiz H. A. Alochio. Advogado. Doutor em Direito (Uerj). Mestre em Direito (UCAM). Fois Visiting Scholar na Florida State University College of Law (2022/2023)


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Luiz Henrique Antunes Alochio

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